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Poema do Mês #3 – Não, não é cansaço

Apesar do mês de janeiro ser o primeiro do ano e, por isso, estar associado a uma nova garra, energia e planos, a verdade é que, na maioria das vezes, é também um mês:

  • Exigente: depois da festa e das férias de dezembro, tudo se acumula em janeiro;
  • Comprido: ao contrário do mês anterior, não há feriados ou férias;
  • Cinzento e frio: é quase sempre um mês ou de chuva ou de baixas temperaturas.

Por isso, é normal que quando chega ao fim já tenha levado consigo uma boa parte da energia que tínhamos reservada para o ano inteiro.
Assim, para o mês de janeiro escolhemos um poema de Álvaro de Campos chamado “Não, não é cansaço…”.
Acima de tudo é um poema de extraordinária beleza, intimista e de que gostamos muito:

 

Não, não é cansaço…

Não, não é cansaço…
É uma quantidade de desilusão
Que se me entranha na espécie de pensar,
É um domingo às avessas
Do sentimento,
Um feriado passado no abismo…

Não, cansaço não é…
É eu estar existindo
E também o mundo,
Com tudo aquilo que contém,
Com tudo aquilo que nele se desdobra
E afinal é a mesma coisa variada em cópias iguais.

Não. Cansaço porquê?
É uma sensação abstracta
Da vida concreta —
Qualquer coisa como um grito
Por dar,
Qualquer coisa como uma angústia
Por sofrer,
Ou por sofrer completamente,
Ou por sofrer como…
Sim, ou por sofrer como…
Isso mesmo, como…

Como quê?…
Se soubesse, não haveria em mim este falso cansaço.

(Ai, cegos que cantam na rua,
Que formidável realejo
Que é a guitarra de um, e a viola do outro, e a voz dela!)

Porque oiço, vejo.
Confesso: é cansaço!…

Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993).  – 111.

 

ALGUMAS NOTAS SOBRE O AUTOR

Álvaro de Campos, heterónimo de Fernando Pessoa, autor do poema "Não, não é cansaço"Álvaro de Campos é um dos heterónimos mais conhecidos, verdadeiro alter ego, do escritor português Fernando Pessoa.

Teve “uma educação vulgar de liceu” e, posteriormente, foi “estudar engenharia, primeiro mecânica e depois naval” em Glasgow.

Além disso, realizou uma viagem ao Oriente, registada no seu poema “Opiário”, e trabalhou em Londres, Barrow on Furness e Newcastle upon Tyne (1922).

Desempregado, teria voltado para Lisboa em 1926, mergulhando então num pessimismo decadentista.

 

 

 

 

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Mas janeiro é só cansaço?

Não. Certamente que é também o mês das resoluções, das metas e de recomeço. Portanto, para o mês de janeiro escolhemos também o poema “Sísifo” de Miguel Torga:

 

Sísifo

Recomeça…
Se puderes
Sem angústia
E sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.

E, nunca saciado,
Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar e vendo
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças…

Miguel Torga TORGA, M., Diário XIII.

 

Cansaço ou recomeço?
O que é que pauta o seu janeiro?

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