Na weScribe privilegiamos palavras, não é novidade. E nesta semana, com tanta coisa especial a acontecer (dia do pai, começo da primavera e dia da poesia) não podíamos deixar de presentear quem está desse lado com as palavras mais bonitas:

Poemas.

Desta vez escolhemos 3 poemas de primavera. Para que leia, se deleite e quem sabe, ofereça.

Não há presente mais sincero do que… palavras.

E todos os dias são bons dias para as dar.

1. Quando vier a primavera, de Alberto Caeiro

Quando vier a Primavera,

Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.

Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma

Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.

 

Algumas notas:
  • Alberto Caeiro é um heterónimo de Fernando Pessoa
  • Nas palavras de Fernando Pessoa “nasceu em Lisboa, mas viveu quase toda a sua vida no campo. Não teve profissão, nem educação quase alguma, só instrução primária; morreram-lhe cedo o pai e a mãe, e deixou-se ficar em casa, vivendo de uns pequenos rendimentos. Vivia com uma tia velha, tia avó. Morreu tuberculoso.
  • Apresenta-se como um simples “guardador de rebanhos”, que só se importa em ver de forma objectiva e natural a realidade.
  • Pode deliciar-se mais ouvindo o poema aqui:

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2. Agora, de Miguel Torga

Abre-te, Primavera!
Tenho um poema à espera
Do teu sorriso.
Um poema indeciso
Entre a coragem e a covardia.
Um poema de lírica alegria
Refreada,
A temer ser tardia
E ser antecipada.
Dantes, nascias
Quando eu te anunciava.
Cantava,
E no meu canto acontecias
Como o tempo depois te confirmava.
Cada verso era a flor que prometias
No futuro sonhado…
Agora, a lei é outra: principias,
E só então eu canto confiado.

Algumas notas:
  • Miguel Torga é um pseudónimo de Adolfo Rocha, médico no Hospital da Misericórdia, oriundo de uma família humilde de Sabrosa.
  • Em 1934, aos 27 anos, Adolfo Correia Rocha autodefiniu-se pelo pseudónimo que criou, “Miguel” e “Torga”. A escolha de “Miguel” foi em homenagem a dois grandes vultos da cultura ibérica: Miguel de Cervantes e Miguel de Unamuno. Já Torga é uma planta brava da montanha, que deita raízes fortes sob a aridez da rocha, de flor branca, arroxeada ou cor de vinho, com um caule incrivelmente rectilíneo.a.
  • Pode saber um pouco mais sobre Miguel Torga no seguinte documentário:

3. Amar, de Florbela Espanca

Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: Aqui… além…
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente…
Amar! Amar! E não amar ninguém!

Recordar? Esquecer? Indiferente!…
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma Primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!

E se um dia hei de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder… pra me encontrar…

Algumas notas:
  • Florbela Espanca foi uma poetisa portuguesa, natural do Alentejo, nascida em dezembro de 1894.
  • Estudou no Liceu de Évora, casou-se em 1913 com Alberto Moutinho, concluiu o Curso De letras dos Liceus e, posteriormente estudou direito na Universidade de Lisboa, onde fez contato com outros poetas da época e com um grupo de mulheres escritoras. Colaborou com jornais e revistas.
  • Casou 3 vezes, sendo que os casamentos fracassados, as desilusões amorosas e a morte acidental do irmão Apeles Espanca, na queda de um avião sobre o Tejo em 1927, marcaram a sua vida e a obra
  • Morreu em dezembro de 1930, aos 36 anos, em decorrência de problemas de saúde, sobretudo de ordem psicológica.
  • O seu atestado de óbito atesta como causa mortis um edema pulmonar mas, em algumas biografias da poetisa, é referido que a mesma se suicidou.

 

Qual o seu preferido?

Tem outro que goste mais?

Conte-nos tudo nos comentáriios e… Feliz Primavera, repleta de poesia.

 

Ah! E se quiser passar pelo nosso facebook vai ver estes poemas em imagens.

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