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Poema do Mês #2 – Natal, e não Dezembro

E num saltinho dezembro não só chegou como já vai quase a metade.

Somos suspeitos.

Gostamos de dezembro. Do frio, do Natal, do colorido das luzes, dos doces e de chás quentes. Gostamos da magia, dos desejos que fervilham o ar e das palavras que se desejam nesta altura.

É dezembro e, como tal, o nosso poema do mês não podia ser outro:

Natal, e não Dezembro, de David Mourão-Ferreira

Entremos, apressados, friorentos,
numa gruta, no bojo de um navio,
num presépio, num prédio, num presídio,
no prédio que amanhã for demolido…
Entremos, inseguros, mas entremos.
Entremos, e depressa, em qualquer sítio,
porque esta noite chama-se Dezembro,
porque sofremos, porque temos frio.

Entremos, dois a dois: somos duzentos,
duzentos mil, doze milhões de nada.
Procuremos o rastro de uma casa,
a cave, a gruta, o sulco de uma nave…
Entremos, despojados, mas entremos.
Das mãos dadas talvez o fogo nasça,
talvez seja Natal e não Dezembro,
talvez universal a consoada.

David Mourão-Ferreira, in ‘Cancioneiro de Natal’

 

Algumas notas sobre o Autor
  • David de Jesus Mourão-Ferreira  nasceu em Lisboa a 24 de fevereiro de 1927 e faleceu a 16 de junho de 1996.
  • Foi um escritor e poeta português.
  • Tem uma biblioteca com o seu nome em Lisboa no Parque das Nações.

 

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Ah, só mais uma coisa:

Somos tão apaixonados por este mês que para além do poema do mês, selecionamos outro. São dois, é verdade, mas dezembro é também o mês dos presentes.

Este é o nosso:

Quando um Homem Quiser de Ary dos Santos:

Tu que dormes à noite na calçada do relento
numa cama de chuva com lençóis feitos de vento
tu que tens o Natal da solidão, do sofrimento
és meu irmão, amigo, és meu irmão

E tu que dormes só o pesadelo do ciúme
numa cama de raiva com lençóis feitos de lume
e sofres o Natal da solidão sem um queixume
és meu irmão, amigo, és meu irmão

Natal é em Dezembro
mas em Maio pode ser
Natal é em Setembro
é quando um homem quiser
Natal é quando nasce
uma vida a amanhecer
Natal é sempre o fruto
que há no ventre da mulher

Tu que inventas ternura e brinquedos para dar
tu que inventas bonecas e comboios de luar
e mentes ao teu filho por não os poderes comprar
és meu irmão, amigo, és meu irmão

E tu que vês na montra a tua fome que eu não sei
fatias de tristeza em cada alegre bolo-rei
pões um sabor amargo em cada doce que eu comprei
és meu irmão, amigo, és meu irmão

Ary dos Santos, in ‘As Palavras das Cantigas’

 

Se se quiser deliciar ouça esta poema interpretado por Paulo de Carvalho (música de Fernando Tordo):

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