Sabia que há palavras com poder maior do que reis, governantes, autoridades e afins?

Como profissionais da transcrição damos de caras, todos os dias, com o poder inacreditável destes pequenos tesouros: as palavras!

E que podem mudar, num estalar de dedos, a disposição de alguém.

Leia também  Transcrever ou não transcrever, eis a questão

No caso da transcrição jurídica

Uma palavra dita fora do contexto, atirada sem pensar como uma pequenina pedra, pode levar a processos longos e caros. E que obrigam os seus intervenientes a situações menos agradáveis. Sendo que, às vezes, as palavras nem foram ditas com o poder que lhes atribui quem as recebe.

Por exemplo:

Se alguém lhe disser que é um palhaço poderá sentir-se magoado e até mesmo insultado. Não pelo fato de os palhaços serem criaturas feias ou repelentes. Mas por se sentir abalado na sua honra e seriedade. Foi o que sentiu um presidente da junta quando alguns cidadãos o apelidaram de tal. Instaurado o devido processo judicial, foi, no entanto, decidido que:

“Vocês são uns palhaços, não sei como o povo vos escolheu”, dirigida a um presidente de Junta de Freguesia no âmbito de uma contenda motivada por questões relacionadas com a atuação dos membros da autarquia, por a mesma se traduzir num juízo de valor em que se exerce o direito de crítica. – Acórdão do Tribunal da Relação de Guimarães, de 02/17/2014

E quantos divórcios não foram motivados por frases ditas, constantes, correntes? Numa espécie de água mole em pedra dura tanto bate até que fura, levando a que um dia, uma das partes transborde e não haja mais volta a dar?

Veja-se, a título de mero exemplo o Acórdão do Tribunal da Relação de Lisboa de 05/15/2012:

O facto de o marido, em discussões com a esposa, relacionadas com dinheiro, chamar-lhe várias vezes “vaca de merda e gatuna” e de também dizer-lhe repetidamente, no âmbito de tais discussões, “vai para a puta que te pariu, para quem te fez os cornos”, constitui uma forma intolerável de violência doméstica a que os Tribunais não podem dar qualquer tipo de guarida, sob pena de grave violação do dever de respeito imposto aos cônjuges e da própria violação dos direitos inerentes ao ser humano

Estes factos não podem deixar de transparecer a quebra dos laços afectivos que devem unir um casal denunciando, assim, a própria ruptura do casamento. Por outro lado, em relação à A., a própria invocação processual destes factos, demonstram inequivocamente que essa ruptura é definitiva.

Leia também  A transcrição de Audiências de Discussão e Julgamento – no âmbito do Processo Civil.

No caso da transcrição médica

Ouvir, por exemplo, no decorrer da transcrição de um relatório, consulta ou outro que “o paciente tem cancro” é totalmente diferente de ouvir que não tem.

Já viu o poder imenso do não, num caso destes? O quanto é fundamental na construção ou destruição de uma vida?

E naquele momento em que, deitada numa marquesa, ouve o coração de uma vida que tem na barriga e espera, impacientemente, o seu coração a bater ao lado do dele, se é menino ou menina? Reparou na imensa importância de uma simples vogal no fim de uma palavra?

No caso de transcrições empresariais, bancárias ou outras

Certos termos e palavras são usados e lidos pelo cidadão comum (muitas das vezes concordando com os mesmos) sem saber minimamente o que querem dizer.

Um exemplo simples:

  • Já foi fiador de alguém?
  • Percebeu tudo o que leu?
  • Ficou com a ideia de que, se o devedor não pagar, os seus bens poderão ser postos em causa (que é como quem diz penhorados) ainda antes dos do próprio devedor?
  • Onde é que estava isso? Pois bem… naquela expressão que lhe pareceu só estranha, mas que não levantou grande curiosidade: “o fiador renuncia ao benefício de excussão prévia”.

 

Pois é!

O poder das palavras na transcrição, como reflexo da vida, é imenso. Todos os dias assistimos à sua capacidade de destruir ou fazer renascer vidas. E respeitamo-las por isso mesmo.

E, claro, no seguimento desta ideia, fomos à procura de algumas citações que refletem isto mesmo (que já deixamos no nosso facebook durante a semana).

 

Tem outros exemplos do poder inegável das palavras?

Passamos a dita (palavra) para esse lado e esperamos que nos conte tudo nos comentários.

Até para a semana e não se esqueça: ao partilhar-nos com o mundo (que é como quem diz partilhar este post) está a partilhar palavras. E há lá coisa mais bonita?

0
Comments

    Deixe uma resposta

    O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *