A transcrição integral de ficheiros de áudio obriga a um rigor absoluto.

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Significa isso que, ainda que o orador cometa o erro mais bárbaro e diga coisas como:

  • “a gente fazemos”,
  • “ambas as duas”
  • e por aí adiante

Ao transcritor não é lícito corrigir o que ali é dito, devendo colocar no papel a frase com os erros mencionados.

E a tentação, evidentemente, pode ser grande:

Se passamos toda uma vida a lutar por aprender mais e melhor, tentando não cometer erros, é normal que ao sermos postos de caras com eles (neste caso, de ouvidos) a primeira tentação seja corrigir, imediatamente, o que é dito.

E às vezes nem é só pela tentação.

É também por uma vontade evitar que o leitor se depare com erros sucessivos, facilitando dessa forma a análise.

A questão é que, se em certos casos, essa correcção é possível e até bem-vinda, noutros é de todo impossível. Tudo depende dos objectivos da transcrição e do cliente.

Mas, se pensarmos bem, quando o que se exige é uma integral transcrição do que é dito, não é lícito corrigir o discurso oral, mesmo que o erro nos magoe os ouvidos.

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Os motivos para não se corrigir erros típicos da expressão oral são vários, sobretudo em áreas como a jurídica e a académica.

Na Transcrição Académica

Repare: se em causa estão entrevistas acerca de um certo tema, que serão depois analisadas e, por exemplo, colocadas numa tese, o investigador precisa de ter em atenção o conteúdo e, claro está, o sujeito entrevistado.

Ora, os erros cometidos por ele – seja a discordância entre o sujeito e o predicado, seja o uso recorrente de pleonasmos, repetições das mesmas expressões de cinco em cinco palavras (hê… a… hê… a…) pausas constantes, entre outros – podem ser imprescindíveis na análise do seu perfil.

Na Transcrição Jurídica

No caso da transcrição jurídica avançamos que – na weScribe – a correcção de erros da expressão oral é proibida.

Não nos esqueçamos que o Tribunal Superior vai ler a prova (não a ouvindo). E como tal, é essa leitura que vai colocar, de alguma forma, os magistrados na sala de audiências, analisando o depoimento da testemunha/perito/parte.

Ou seja, ainda que os juízes não tenham a possibilidade de ver a linguagem corporal daquele orador sendo mais difícil, por isso, perceber elementos importantes na análise da credibilidade do depoimento (constante mexer do corpo, roer as unhas, nunca olhar diretamente na cara de quem o/a questiona, etc.) devem conseguir, através da leitura da transcrição do depoimento, perceber certos aspectos como:

  • Hesitações;
  • Gaguez
  • Interrupções do próprio discurso
  • Pausas longas;

E tudo isso é passível de se identificar aquando se transcreve a gravação de áudio. Seja através da pontuação usada, seja através de comentários feitos pelo transcritor que, de modo contido e sucinto, identifica elementos que não constam do discurso (pausa de x segundos), (risos), (choro), (ausência da sala), etc.

Percebe então os motivos?

Para o ajudar a ter melhor dimensão do que acabamos de explicar, deixamos 3 exemplos práticos – e caricatos:

  1. Transcrição de sons externos

“Numa audiência de julgamento foi combinado um sinal – entre advogado e testemunhas – para que as perguntas fossem respondidas numa certa direcção:

  • quando o pretendido fosse uma resposta negativa o advogado bateria com a caneta na mesa uma vez;
  • Quando o pretendido fosse uma resposta positiva o advogado bateria com a caneta duas vezes.

Claro que, com esta sinalética, o depoimento corria às mil maravilhas: sempre que era necessário, o advogado, muito discretamente dava uso à caneta levando a testemunha no caminho certo.
A meio do depoimento, farto do batuque que, ainda que discreto era audível, o juiz pigarreou e disse ao advogado:
– Oh senhor doutor, olhe que ainda parte a caneta…
E o advogado, apanhado de surpresa a meio da pergunta, vê a caneta escorregar-lhe da mão que, ao cair, bate uma vez na mesa e, em ressalto, duas vezes no chão.
Para esconder a atrapalhação, o advogado ergue a voz e dirigindo-se à testemunha pergunta:
– Então homem, sim ou não?
E a testemunha, confusa, responde:
– Não sei senhor doutor, a caneta embaralhou tudo!”

Neste caso podemos questionar-nos: era evidente para o transcritor colocar o comentário [som de caneta] cada vez que ouvia a mesma?

Provavelmente, numa fase inicial de transcrição… não.  E tal estaria correctíssimo se se percebesse que em causa estava apenas um ruído isolado. Como por exemplo, um tique por parte de quem nela mexia, ou um outro aspecto que não acrescentasse nada à transcrição.

No entanto, como se pode ver, a sua sinalização era de extrema importância uma vez que condicionava todo o depoimento. E assim que percebesse tal, era imprescindível que o transcritor a acrescentasse.

 

Há ainda dois episódios retirados daqui que demonstram a importância de transcrever sons/erros e que a seguir resumimos:

  1. Transcrição de erros do orador

“Duas ou três mulheres ciganas foram detidas em flagrante delito pela PSP. Isto porque num dos supermercados CONTINENTE pegavam na roupa em exposição e escondiam-na debaixo das saias para depois as furtar.
Aquando do julgamento, o juiz em causa, quando lia os factos constantes do auto de notícia levantado pela PSP, ao chegar à parte em que eram identificados os artigos furtados e apreendidos, deu de caras com um “Body” de senhora. No entanto, ao ler aportuguesou a palavra e em vez de body disse… bode.
E logo de imediato, muito espantado, pergunta:
– Que Diabo! Também já vendem bodes no CONTINENTE?”

Repare: se neste caso, ao transcrever o julgamento, tivesse transcrito body em vez de bode, corrigindo dessa forma o erro do orador, o resto do episódio não se perceberia (e iria evitar as gargalhadas seguintes).

  1. Transcrição de onomatopeias

Num julgamento numa vila do interior, tratava-se de um acidente de viação.
Uma coisa simples: um rapaz, ao guiador de uma motoreta, atropelara um peão que atravessava a rua, ferindo-o sem grande gravidade. No entanto, se o caso era simples, já fazer prova do mesmo nem por isso, uma vez que as testemunhas eram poucas e apenas tinham visto o condutor e a vítima prostrados no meio do pavimento após terem ouvido o estrondo do embate.

Assim, era muito difícil aferir, por critérios técnicos, se a motoreta ia ou não em excesso de velocidade.

Na altura das alegações orais, o advogado do Réu que conduzia a motoreta, com muita vontade de maravilhar juízes e audiência, começou um pequeno teatro:
— Senhor juiz, a causa é simples e ao olhar arguto e atento de Vossa Excelência não escapou a total ausência de culpa do réu, meu constituinte, no infausto acidente que, graças a Deus, se limitou a produzir consequências ligeiras traduzidas em escoriações sem importância de maior. Está a ver-se como tudo aconteceu!
E para exemplificar como, na realidade, tudo tinha acontecido, arregaçou as mangas da toga, estendeu os braços de punhos cerrados e começou a imitar o seu cliente agarrado ao guiador de uma imaginária motorizada em andamento:

— Berrum, vrum, vrum pum, pum, vrum, vruuuuum!… — dizia ele, ao mesmo tempo que esticava o corpo em direção à porta fechada da sala, na sua motoreta imaginária, — verruuum, ruuuum, ruuum…

E no meio daquele entusiamo onomatopaico o juiz simulou um ar de consternada aflição e exclamou:
— Ó senhor oficial, abra imediatamente a porta da sala, que o senhor advogado quer sair de motorizada e, com a velocidade que leva, ainda se estampa!

Vê como era importante transcrever os berrum, vrum, vrum, pum, pum? 😀

 

Na weScribe assumimos que não cabe ao Transcritor decidir pelo Cliente.

Como tal, o que é dito é escrito. Com as devidas interrupções, hesitações, erros ou outros. É claro que estamos sempre disponíveis a suprimir determinados elementos por indicação do Cliente. Mas, se nada for dito em contrário, a transcrição é integral e completa.

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