Todos os dias, ao transcrever, damos de caras (ou melhor, de ouvidos) com expressões portuguesas curiosas e que, fazendo parte do nosso vocabulário nem sempre nos questionamos qual a sua origem. Na verdade, na maioria das vezes, usamo-las diariamente sem perceber que não fazem lá grande sentido.

Pelo que, imbuídos do nosso espírito curioso, reunimos 10 expressões portuguesas e fomos à procura da sua origem e significado.

Esta semana já deixamos 5 no nosso facebook e iremos publicar as restantes 5 no decorrer da próxima semana.

Vamos lá então?

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  • Sangria desatada

Quantas vezes já ouvimos alguém dizer, num certo e determinado contexto: “também não é uma sangria desatada”?

Várias ou nem por isso?

Nós por aqui ouvimos imensas vezes. E decidimos questionar-nos: o que é que isso quer dizer?

  • Estamos a falar daquela bebida feita com bom vinho e boa fruta, servida com um belíssimo pau de canela e uma folhinha de hortelã?
  • E a bebida é servida sem estar atada?
  • Ou estaremos a falar de um sangramento que não está amarrado num lindo laçarote?
  • Mas como é que se dá um laçarote a um pedaço de sangue? E para quê? Para presentear um vampiro?
  • É isso?

Frio, frio, nas duas hipóteses.

Significa:  que algo precisa de uma solução ou realização rápida, imediata.

Exemplo de utilização: “vamos lá então acabar esta transcrição que isto é uma sangria desatada”. Ou na negativa: “não precisas de perder a noite a transcrever isso. Tens prazo. Não é uma sangria desatada”.

Origem: nas guerras onde se verificava a necessidade de cuidados especiais com os soldados feridos. Na verdade, alguns tratamentos imediatos consistiam em amarrar as feridas dos soldados para evitar que estes morressem através da perda de sangue. O “tratamento” tinha de ser imediato/rápido uma vez que a perda de sangue se dá a grande ritmo. Daí a urgência associada à expressão.

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  • Ter para os alfinetes

Se teve contato com avós simpáticas há uma grande probabilidade ter recebido, com um sorriso, uma nota ou uma moeda dizendo “pega lá, para os teus alfinetes”.

Não é difícil adivinhar o significado: ter dinheiro para gastos pessoais.

Mas qual a origem? Bem, para perceber é necessário recuar a um tempo em que os alfinetes eram considerados objetos de adorno feminino, muitas das vezes bastante caros. Para os adquirir muitas mulheres precisavam de poupar dinheiro, gastando-o depois nestes objetos pessoais.

Com o passar do tempo os alfinetes deixaram de ser considerados um objeto só de adorno, passando a ser acessíveis e úteis. Mas a expressão continuou.

Curioso é que a mesma chegou a ser acolhida no Código Civil Português, aprovado por Carta de Lei de Julho de 1867, no artigo 1104:

«A mulher não pode privar o marido, por convenção antenupcial, da administração dos bens do casal; mas pode reservar para si o direito de receber, a título de alfinetes, uma parte do rendimento dos seus bens, e dispor dela livremente, contanto que não exceda a terça dos ditos rendimentos líquidos.»

Nada machista, pois não?

  • Jurar a pés juntos

Todos nós já utilizamos esta expressão numa altura ou outra. E o objetivo foi sempre o mesmo: garantir falávamos verdade, sem qualquer possibilidade de dúvida.

Por isso, juramos a pés juntos que…

  • não partimos aquele objeto que a nossa mãe gostava tanto;
  • não fomos nós que começamos a briga com o nosso irmão mais novo; ou,
  • não chegamos nada atrasados à catequese.

Mas qual o motivo de juramos a pés juntos? Por que não separados?

Simples (e pouco simpático):

É que esta expressão surgiu devido às torturas executadas pela Santa Inquisição, onde o acusado de heresias tinha as mãos e os pés amarrados (juntos) e era torturado para dizer a verdade (ou a mentira, claro, se a tortura parasse).

Atualmente, no início de um depoimento numa audiência de discussão e julgamento ainda se jura dizer-se a verdade e só a verdade. Mas não é preciso ter os pés juntos.

E há até quem faça figas com os dedos.

  • Tirar o cavalo da chuva

“É que bem podes tirar o cavalinho da chuva” disse você a alguém, num dia qualquer, por qualquer motivo.

Disse, não disse?

E o que é que queria afirmar com isso?

Provavelmente que mais valia a outra pessoa desistir daquela pretensão, perder as ilusões quanto a qualquer coisa.

Mas agora, pensando bem, qual a ligação entre um cavalo estar à chuva e a outra pessoa esperar sentada por algo? Basta saber a origem desta expressão para perceber!

A expressão remonta ao século XIX. Nessa altura, quando uma visita iria ser breve, ela deixava o cavalo em frente à casa do anfitrião. Já se fosse demorar, colocava o cavalo nos fundos da casa, protegendo o animal da chuva (e do sol, vá). No entanto, o convidado só poderia proteger o cavalo da chuva se o anfitrião gostasse da visita e lhe dissesse: “Pode tirar o cavalo da chuva”.

Basicamente, e em resumo: era como ir a casa da sua tia pedir mil euros, com o seu veículo descapotável e, mesmo começando a chover, ela não o convidar a arrumar o mesmo na garagem. Percebia que mais valia ir embora porque a sua tia não estava para aí virada, não era?

  • Dourar a pílula

Vamos lá ver: é possível dourar comprimidos? Sejam pílulas anticoncecionais ou outros? Provavelmente sim. Mas qual o objetivo? Torná-los luxuosos? Para quê?

Portanto, a questão que se coloca: o que significa dourar a pílula?

Simples! Usamos esta expressão quando queremos dizer que se pode melhorar a aparência de algo.  Quando queremos apresentar algo difícil ou desagradável como uma coisa mais suave e mais fácil de aceitar. É como… um eufemismo:

  • “Quer dizer que me deixaste pendurada, mas foi porque te sentiste intimidado com a minha beleza? Não estejas agora a dourar a pílula”; ou,
  • “Na verdade, tu não estás gordo. Tens apenas mais fofura na barriga. E nem estou a dourar a pílula.”

E qual a origem desta expressão?

Antigamente, as farmácias embrulhavam as pílulas em papel dourado, para melhorar o aspeto do remédio. Na verdade, o sabor não mudava em nada e era quase sempre amargo. Mas o fato de o comprimido estar revestido num papel dourado (a fazer lembrar ouro, algo luxuoso) tornava-o mais bonito e apelativo à compra.

Ou seja: mascarava-se a realidade tentando que algo desagradável fosse apresentado de forma mais suave.

E a verdade é que ainda hoje resulta, não acha?

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Por hoje estão apresentadas as 5 expressões e, sendo certo que isto não é uma sangria desatada, gostaríamos que nos dissesse (não é preciso jurar a pés juntos) se gostaram do nosso post. Não vale a pena dourar a pílula, que já somos adultos para o aguentar (prova disso é que nem precisamos que a nossa avó nos dê dinheiro para os alfinetes).

Podemos contar com isso ou é melhor tirarmos o cavalinho da chuva?

Ah, e não esqueça: para a semana publicaremos mais 5 expressões, o seu significado e a suas origens. Até lá passe pelo nosso facebook e instagram 🙂

Boa semana.

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