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4 Poemas de Páscoa

No ano passado, por altura da Páscoa, selecionamos 5 palavras que nos fazem lembrar esta data especial. Este ano – e porque continuamos a privilegiar palavras – fomos à procura de 4 poemas de Páscoa.

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O mérito deste post, portanto, não é nosso. Mas garantimos que os votos de uma Páscoa muitíssimo feliz são todos nossos.

1. Páscoa, de Miguel Torga

Uma das nossas revisoras é absolutamente vidrada em Miguel Torga. Por isso, quando questionamos alguns membros da equipa se conheciam – e gostavam – de poemas de Páscoa, recomendou-nos este, sem pensar duas vezes:

PÁSCOA
Um dia de poemas na lembrança
(Também meus)
Que o passado inspirou.
A natureza inteira a florir
No mais prosaico verso.
Foguetes e folares,
Sinos a repicar,
E a carícia lasciva e paternal
Do sol progenitor
Da primavera.
Ah, quem pudera
Ser de novo
Um dos felizes
Desta aleluia!
Sentir no corpo a ressurreição.
O coração,
Milagre do milagre da energia,
A irradiar saúde e alegria
Em cada pulsação.
Miguel Torga, in Diário XVI

Algumas notas:
  • Miguel Torga é um pseudónimo de Adolfo Rocha, médico no Hospital da Misericórdia, oriundo de uma família humilde de Sabrosa.
  • Em 1934, aos 27 anos, Adolfo Correia Rocha autodefiniu-se pelo pseudónimo que criou, “Miguel” e “Torga”.
  • A escolha de “Miguel” foi em homenagem a dois grandes vultos da cultura ibérica: Miguel de Cervantes e Miguel de Unamuno.
  • Já Torga é uma planta brava da montanha, que deita raízes fortes sob a aridez da rocha, de flor branca, arroxeada ou cor de vinho, com um caule incrivelmente rectilíneo.
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2. A paz sem vencedor e sem vencidos, de Sophia de Mello Breyner Andresen

Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos
A paz sem vencedor e sem vencidos
Que o tempo que nos deste seja um novo
Recomeço de esperança e de justiça.
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos
A paz sem vencedor e sem vencidos
Erguei o nosso ser à transparência
Para podermos ler melhor a vida
Para entendermos vosso mandamento
Para que venha a nós o vosso reino
Dai-nos
A paz sem vencedor e sem vencidos
Fazei Senhor que a paz seja de todos
Dai-nos a paz que nasce da verdade
Dai-nos a paz que nasce da justiça
Dai-nos a paz chamada liberdade
Dai-nos Senhor paz que vos pedimos
A paz sem vencedor e sem vencidos
In Dual (1972) – Sophia de Mello Breyner Andresen

Algumas notas
  • Sophia de Mello Breyner Andresen Nasceu a 06 novembro de 1919 no Porto, e morreu em 02 julho 2004 em Lisboa.
  • Foi uma das mais importantes poetisas portuguesas do século XX.
  • Foi a primeira mulher portuguesa a receber o mais importante galardão literário da língua portuguesa, o Prémio Camões, em 1999.
  • E este é um dos poemas de Páscoa de que gostamos mais.

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3. Páscoa na aldeia, de Teixeira de Pascoaes

Minha aldeia na Páscoa…
Infância, mês de Abril!
Manhã primaveril!
A velha igreja.
Entre as árvores alveja,
Alegre e rumorosa
De povo, luzes, flores…
E, na penumbra dos altares cor-de-rosa .
Rasgados pelo sol os negros véus.
Parece até sorrir a Virgem-Mãe das Dores.
Ressurreição de Deus! (…)
Em pleno azul, erguida
Entre a verde folhagem das uveiras.
Rebrilha a cruz de prata florescida…
Na igreja antiga a rir seu branco riso de cal.
Ébrias de cor, tremulam as bandeiras…
Vede! Jesus lá vai, ao sol de Portugal!
Ei-lo que entra contente nos casais;
E, com amor, visita as rústicas choupanas.
É ele, esse que trouxe aos míseros mortais
As grandes alegrias sobre-humanas.
Lá vai, lá vai, por íngremes caminhos!
Linda manhã, canções de passarinhos!
A campainha toca: Aleluia! Aleluia! (…)
Velhos trabalhadores, por quem sofreu Jesus.
E mães, acalentando os filhos no regaço.
Esperam o COMPASSO…
E, ajoelhando com séria devoção.
Beijam os pés da Cruz.

Algumas notas
  • Teixeira de Pascoaes nasceu a 2 de novembro de 1877 na freguesia de São Gonçalo de Amarante e morreu a 14 de dezembro de 1952 no Solar de Pascoaes em Gatão;
  • Nas suas próprias palavras Pascoaes era um “homem cabisbaixo, sisudo, com uns olhos tristes e espantados”.
  • Com António Sérgio e Raul Proença foi um dos líderes do chamado movimento da “Renascença Portuguesa” e lançou em 1910 no Porto, juntamente com Leonardo Coimbra e Jaime Cortesão, a revista A Águia, principal órgão do movimento.
  • Foi nomeado para o Nobel da Literatura em 1942, 1943, 1944, 1947 e 1948, sempre por João António de Mascarenhas Júdice, visconde de Lagoa e membro da Academia Portuguesa na secção de Humanidade.
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4. “QUEM”, de Manuel Alegre

QUEM
Não sei como se ressuscita
no terceiro dia
de cada sílaba
nem se há palavra para voltar
do grande rio do
esquecimento.
Não sei se no terceiro dia
alguém me espera. Ou se
ninguém.
Em cada poema levanto a pedra
em cada poema pergunto quem.

Algumas notas
  • Manuel Alegre é um escritor e político português.
  • Devido à sua posição contra a ditadura de Salazar foi preso pela PIDE e esteve exilado
  • Após o 25 de abril regressou a Portugal e foi um ativo político durante 34 anos.
  • É um escritor prestigiado com vários prémios, nomeadamente e entre outros o Prémio Pessoa (1999) e o Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores (1998).
  • Se quiser ouvir um pouco da obra deste Autor pode ver este vídeo onde o próprio declama alguns dos seus poemas:

 

 

E então? Conhece outro poema, para além destes, sobre a Páscoa?

E destes poemas de Páscoa? Qual gostou mais?

Conte-nos tudo nos comentários e… uma Feliz Páscoa!

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